Qualificando Relações

Suicídio - nem fraqueza, nem coragem

Longe de ser um ato de fraqueza ou de coragem, o suicídio é o resultado de uma série de fatores que alteram a capacidade de encontrar saída para as dores emocionais, comprometendo toda e qualquer expectativa de futuro ou de transcendência do mal-estar que o viver provoca.
Dentre os principais fatores, os transtornos mentais como: depressão, ansiedade, fobia, pânico e dependência de substâncias químicas estão presentes na história clínica da maioria dos suicidas, de forma moderada a grave. Além disso, a solidão, o medo, as crises familiares, profissionais e financeiras, etc., aumentam a sensação de incapacidade para lidar com a realidade e facilitam projetar na morte a solução definitiva para as dificuldades.
Experimentamos uma realidade que sugere que a felicidade está logo ali, à frente, depois da curva e para chegar lá é preciso disposição, talentos múltiplos, juventude eterna, seguir o padrão de beleza estético, ler o último best seller, ser bem-sucedido, conhecer o mundo, ser descolado, rir, ser feliz, estar feliz, querer a inatingível felicidade... ufa! Que cansaço!!! E amanhã tem mais e mais e mais.
Com a cabeça cheia de exigências e vazia de possibilidades, sucumbir se torna a realidade de muitos. Nunca foi fácil se adaptar a um mundo doente e neste momento, “a doença” está potencializada pela superconexão, pelo imediatismo e descartabilidade, principalmente, das relações. Pessoas estão conectadas e sozinhas. Mostram-se os talentos e esconde-se o medo. Mostra-se a alegria e engole-se a tristeza.
Há uma saída para lidar com esse real cenário?! Assim como para o suicídio não existe UM fator determinante, também não há UMA saída apenas para tornar suportável a realidade. Para tanto, gostaria de sugerir que desconfie, sim, desconfie de que a tristeza, o mal-estar e a frustração, partes da vida e do cotidiano, quando se tornam persistentes e insistentes, estejam indicando que algo mais grave está se passando e precisa ser cuidado.
Perceba que ninguém é feliz o tempo todo. Nem eu e nem você. O que fazemos com os intervalos entre um momento de felicidade e outro? Além disto, ninguém é bem-sucedido todo o tempo. Erramos sim – muito e bastante. Os medos do fracasso, da rejeição, do abandono estão presentes em nós. Quando e onde eles se tornaram tão devastadores?
Saiba que ninguém vive sozinho. Até podemos preferir a solidão, no entanto, quando queremos alguém, quais são as nossas conexões reais? Com quem podemos contar?
Saiba que qualidade e quantidade, nem sempre se equivalem. Como se equilibrar no meio destes conceitos que se aplicam ao trabalho, as relações amorosas, ao dinheiro, etc.?
Nos muitos textos que leio sobre suicídio, alguns apontam para a dúvida do suicida ante seu ato derradeiro. Como se esperasse que algo mágico acontecesse e o demovesse da única saída que, naquele momento, parece possível. Nós também duvidamos e queremos a magia. A mágica não existe. A saída possível passa pelo caminho de viver a dor, de questionar o mal-estar, transformar em palavras a angustia e a dor emocional. Reafirmo: não há uma solução, uma teoria, “O” profissional – a saída para a crise é singular, intransferível e precisa ser construída. Como?
Acredito que ouvir quem está próximo de você e a si mesmo, prestando atenção se o que se fala condiz com o brilho dos olhos, seja um bom começo. E se achar que a vida está pesada demais para si ou para cuidar de alguém, busque ajuda – conte para um/a amigo/a ou conhecido/a, ligue para o CVV, busque um terapeuta, busque algo que lhe pareça sensato e que tem a ver com você.
Falar sobre as dores do viver em um ambiente seguro, pode ser revelador. Ouvir-se falando, mais ainda. Não se deixe para depois. Não deixe para depois seu colega, seu amigo, seu familiar por medo de não saber ajudar, por achar que se não fizer nada – vai passar. Às vezes o que temos de melhor a oferecer e buscar - é uma escuta atenta, acolhedora e um coração aberto. O que vier depois pode ser analítico, terapêutico e transformador.

Autora: Ana Maria Dall'Agnese - psicóloga