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Ser pai é saber encantar e deixar-se ser encantado

Pais são homens comuns que por coragem e amor se transformam em algo extraordinário: sábios; heróis; aventureiros; contadores de histórias e guardiães zelosos do bem-estar daqueles a quem escolhem se doar. Ser pai não é o mesmo que simplesmente gerar um filho, é decidir-se a ser parte da construção de uma pessoa. É tomar para si a responsabilidade e o privilégio de ser modelo a alguém que quer se tornar alguém. Ser pai é dar a si mesmo - sua vida, seu exemplo - para que o filho construa uma identidade.
Como diz Umberto Eco, "o que nos tornamos depende do que nossos pais nos ensinam em momentos inesperados, quando não estão tentando nos ensinar nada. Somos formados por esses pequenos pedacinhos de sabedoria". Esses pedacinhos que nos constroem têm formas tão variadas quanto se pode imaginar, e são muitas as imagens que nos vêm à mente ao pensar no que é ser pai. Seja no primeiro plano ou nos bastidores do dia-a-dia, ser pai é se fazer sentir, como uma presença segura, amorosa e confiável, nas mais diversas formas. Como uma homenagem a esses extraordinários homens comuns, em seu dia, trazemos um mosaico de alguns desses pedacinhos, que nos mostra a grandeza e importância dessa figura na vida de qualquer pessoa.
Há o pai-herói, corajoso, que afugenta os monstros e tira do caminho os obstáculos. Bravo aventureiro, ser pai é oferecer um modelo de coragem, mas é também ser capaz de reconhecer e valorizar as aspirações, sonhos e desejos de seu filho; é cultivar o herói e a heroína que há dentro de cada um de seus filhos.
Por vezes, os filhos, pequenos ou grandes, têm nele um sábio conselheiro que está lá quando dúvidas e incertezas os assombram. O pai pode ser um conhecedor do mundo e dono de sabedorias proverbiais; mas ser pai é também ser um exemplo de falibilidade e incompletude, ou seja, é ser modelo de humanidade numa de suas mais belas virtudes, a humildade. Mais que papai-sabe-tudo, ser pai é ser também alguém que aprende junto.
Contador de histórias, encantador de imaginações infantis, ser pai é às vezes ser mensageiro de conhecimentos estranhos, mundos distantes e grandes novidades, mas também é ser capaz de encantar-se com a descoberta pela criança de seus próprios pés; ou de espantar-se com a profundidade da singela teoria infantil sobre o movimento da lua e deixar-se perder as certezas diante de um bem colocado "por quê?". Ser pai é saber encantar e deixar-se ser encantado.
Texto: Lucas Schuster - psicólogo