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O luto no Dia das Mães

Está chegando o dia das mães. Já começaram os anúncios e propagandas no rádio, na televisão, nas vitrines das lojas, no shopping, nas ruas... é difícil passarem desapercebidas todas as notícias relacionadas a esse dia. Contudo, essa não é uma data comemorativa para todos, bem pelo contrário, é uma data muito difícil e triste para algumas pessoas.

A morte de alguém significativo na nossa vida deixa uma cicatriz, pode "tirar o nosso chão" e frequentemente demora um tempo até conseguirmos retomar algumas de nossa atividades. Normalmente, o primeiro ano costuma ser o mais difícil porque nele, vivemos todos "os primeiros" sem a pessoa amada: o nosso primeiro aniversário, primeiro aniversário da pessoa, aniversário de morte, natal, ano novo, dia dos pais, dia das mães e tantos outros marcos cotidianos que evidenciam esta falta.

O luto é um processo em movimento, vai e volta, vai e volta, às vezes estamos nos sentindo bem fazendo alguma coisa que gostamos e algo no ambiente nos faz lembrar àquela pessoa ou nós mesmos vemos a nossa cabeça voar para alguma lembrança relacionada àquela pessoa e junto vem os sentimentos da falta dela, como saudades, tristeza, raiva, amor ou muitos outros sentimentos, cada um sente o que sente. O contrário também acontece, às vezes estamos pensando na pessoa ou fazendo alguma atividade que lembre ela, como mexendo nas coisas dessa pessoa ou comendo algo que sabíamos que ela gostava, e, de repente, alguma coisa chama nossa atenção e nos envolvemos em outra atividade. Vai e volta, vai e volta. E mesmo quando a vida começa a se reorganizar e nós conseguimos viver com aquela cicatriz já mais acomodada, o vai e volta das lembranças continua (porque ele faz parte), mas já sem doer mais tanto como se a cicatriz ainda estivesse aberta e já sem doer o tempo inteiro. Mesmo assim, algumas situações podem continuar sendo mais difíceis e mobilizadoras.

O dia das mães, assim como outras datas comemorativas, costuma ser uma delas. As pessoas que já não tem as suas mães ou as mães cujos filhos morreram ficam constantemente se deparando com a realidade dessa perda no mundo ao redor. Não é fácil. Contudo, assim como a morte nos ensina, muitas coisas na vida nós não controlamos. Não temos como proibir o dia das mães ou "proteger" quem sofre com essa data tentando escondê-las de todos os bombardeios da mídia. Não seria nem adequado fazer isso. Lembra o que havíamos falado antes? O luto é um processo em movimento, vai e volta. Com certeza, a data pode fazer (e muito provavelmente faz) esse final de semana ser bem mais difícil do que seria um fim de semana comum, mas também permite entrar em contato com essa dor, ela aparece em outros momentos além do dia das mães. Então poder entrar em contato com a falta e os sentimentos que ela produz e falar sobre isso pode ser importante para quem está passando por esse luto.

O importante é poder se respeitar, respeitar o seu momento e os seus sentimentos, não lute contra isso, a batalha é muito mais sofrida do que o sentimento desagradável em si. Poder fazer nesse dia o que for importante para você ou que você tenha vontade naquele momento, respeitando as suas necessidades, o seu autocuidado. Às vezes as pessoas no entorno não querem ver você sofrendo ou sozinho nesse dia e tentam lhe incluir nas programações delas, mas cabe a você poder se ouvir e decidir se você gostaria ou não de fazer isso nesse momento. Se você sentir que a dor é muito forte, que está muito insuportável ou que isso está dificultando para que você realize coisas importantes na sua vida, procure ajuda.

O luto é um processo natural, saudável e que faz parte da vida, todos vivemos ou viveremos isso em algum momento, mas poder ouvir isso de um profissional ou receber auxílio para conseguir realizar esse processo quando necessário pode ser importante para algumas pessoas. O luto só acontece porque nós amamos, cada um do seu jeito, todas as relações com alguns problemas, mas é amor, senão não teria luto. E esse amor não termina com a morte, sempre levamos um pedacinho dessa pessoa conosco quando tocamos a nossa vida adiante.

Mariana Sanseverino Dillenburg - psicóloga do CORA Núcleo de Luto do CEFI