Qualificando Relações

8 de março - Que possamos celebrar, valorizar, refletir, promover e transformar

Ser mulher é algo construído dentro de nós, nas nossas relações e na nossa vida em sociedade. É importante valorizar, manter e expandir comportamentos, costumes e direitos conquistados. A valorização vem do reconhecimento daquelas que, a partir da reflexão, da palavra e da ação, fizeram o dia a dia da sua existência diferente. Das avós, mães e filhas que saíram do espaço doméstico - não conformadas com frases de naturalização e consolo como “a vida é assim, minha filha”, “isso não é coisa de mulher” ou “é minha mulher que manda lá casa!” - e foram para a rua, mandar na cena social e política, adentrando fábricas, faculdades, palcos e palanques. Da mesma forma, daquelas que não puderam ou não quiseram sair de casa, e que construíram relações familiares pautadas pela igualdade, pela empatia e pelo respeito. E também daquelas que ousaram construir outras formas de família ou uma vida para além da maternidade, celebrando o amor e a liberdade. Todas, passando pelas alegrias, dores e renúncias de cada dinâmica pessoal, familiar e dos ciclos de vida. O intenso cenário político que vivemos hoje, especialmente no Brasil, tem trazido o ódio e a intolerância para dentro de nós e para as nossas relações. É preciso que possamos nos conectar com o que há de humano em nós e nas outras pessoas , para além dos rótulos. Chega! Por tudo o que passamos e vemos outras mulheres passar. O medo é normal. As mudanças nos tiram do lugar de conforto, e nos trazem novas e desconhecidas vivências e significados. E são muitas as mudanças para quem, há algumas décadas, era considerada relativamente incapaz pela lei brasileira. As mulheres precisavam obedecer ao chamado “chefe da relação conjugal”, e dependiam da autorização dele para abrir conta em banco, estudar ou trabalhar fora. Para quem nasceu a partir da década de 1980, 1990, 2000, isso parece um passado (su)(i)rreal e distante. Mas ele ainda está presente e reverbera em comportamentos e frases que repetimos de geração em geração sem, muitas vezes, nos darmos conta. Aos nossos meninos, ensinamos a importância de compartilhar. Adultos, percebemos o quão difícil é para aqueles que “naturalmente” sempre estiveram nos espaços públicos e privados, compartilhar poder, fala e, especialmente, ouvir "não!". Não pode bater, não pode assediar, não pode humilhar, não pode matar. Não pode tocar de maneira inapropriada a sobrinha menor de idade. Não pode tocar ou falar dos seios da colega de trabalho. Nem de brincadeira. Não pode forçar a relação sexual se ela mudou de ideia. O véu caiu. As redes sociais fizeram explodir relatos. Fizeram algumas perceberem que não, não é normal. Fizeram pensar. E também mobilizaram aquelas com acesso a internet, no mundo inteiro. Mas assim como a democracia, as conquistas e os direitos sempre estão por um fio. Está aí a história para provar. É por isso que é preciso manter, com atenção e cuidado, o que parece já estar conquistado. O autocuidado, o autoconhecimento e a conexão consigo mesma, permitem organizar as ideias, necessidades e sentimentos fundamentais para que possamos seguir em frente, firmes e fortes. O olhar humano, a compreensão e o respeito a si mesma e às outras pessoas, permite uma organização social plural e justa. Permite a consciência de que convivemos em mundo em que as pessoas são diferentes, pensam diferente, e tem condições de conviver, cada uma com suas escolhas, valores e crenças, sem aniquilar ou violentar outros indivíduos. É preciso exercitar nosso olhar para pequenas coisas do dia a dia. Olhar para uma deputada, uma escritora ou uma atleta na televisão, ouvindo verdadeiramente sua voz, sem pensar somente se ela é bonita, feia, magra, gorda, na roupa ou no cabelo. É preciso olhar para uma mulher negra e refletir sobre os estereótipos que surgem imediatamente nas nossas mentes. É preciso pensar quantas delas estão nas salas de aulas, nas grandes empresas, no restaurante no domingo, e pensar "porque?" Precisamos pensar o motivo de nos perguntamos: "e o que ela fez?" quando lemos sobre um estupro ou violência doméstica. Pensar formas para que os homens possam participar do ambiente doméstico, e compartilhar a parentalidade para além dos cinco dias de licença paternidade garantidos na constituição. Recentemente, uma amiga fez uma entrevista de emprego e depois de relatar toda sua experiência na área, percebeu que a recrutadora fez apenas três anotações no currículo dela: “solteira”, “uma filha”, “três anos”. É preciso refletir porque, em uma entrevista de emprego, ter filhos é considerado um obstáculo ao comprometimento da mulher no trabalho, enquanto para homem, é considerado um sinal de estabilidade. Refletir porque uma mulher deve parecer sempre jovem e tentar enxergar a beleza nas nossas marcas do rosto, nos nossos corpos e nas nossas vidas. Sair da nossa bolha e pensar na realidade de outras mulheres. Experimentar ser respeitada e ouvida. Procurar ajuda quando necessário. As coisas mudam e mudam porque algum dia alguém perguntou porque elas eram daquele jeito: "Porque não posso votar?". Somos diferentes sim, mas não podemos nem precisamos ter rótulos desde que nascemos. É preciso que nos vejam enquanto pessoas, que pensam e sentem, não como coisas que precisam se submeter ao que outras pessoas consideram que seja o certo ou o normal. Respeito, liberdade, dignidade, amor, saúde, paz e segurança, são direitos e necessidades básicas de todos os indivíduos. É o que nos conecta, mulheres e homens, na condição de ser humano. A promoção e a expansão dos direitos das mulheres é um caminho infinito, de vida, de geração para geração. É a utopia que nos faz caminhar. Que neste oito de março possamos celebrar, valorizar, refletir, promover e transformar.

Aline Leão - Advogada, Jornalista, Conciliadora e Mediadora de Conflitos cadastrada no CNJ e ICFML-IMI, Mediadora Familiar no CEFI, Professora convidada nas áreas de Mediação e Negociação, Mestranda na Escola de Humanidades da PUCRS.
#cefiportoalegre #diadamulher #psicologia