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15 de Outubro - Vamos falar sobre perda gestacional?

A perda gestacional e neonatal são fenômenos de grande ocorrência. Estudos variados apontam que em torno de 20% das mulheres tem a gravidez interrompida de forma espontânea antes da 12º semana de gravidez e, denominam esta perda, de gestacional. Quando acontece até a 22º semana denomina-se perda gestacional precoce e a partir daí perda gestacional tardia. A morte neonatal corresponde ao falecimento do recém-nascido até 28 dias de vida completos. Em qualquer dos casos o que resta é um vazio imenso no corpo e no coração da mãe e pai que perdem.
É inominável a dor que uma mãe e um pai sentem ao perder um filho. A perda gestacional ou a neonatal carrega ainda o fator de ser, na maioria das vezes, inesperada e geradora de sentimentos como tristeza, culpa e medo de ter feito algo errado ou de repetir a experiência no futuro.
Socialmente pode tornar-se negada e sem espaço para o luto. São comuns as atribuições de que uma nova gravidez poderá sanar a dor do filho perdido. Mentira. Um filho amado e perdido não será esquecido e para valorizar esta vivência e experiência reconhecendo a dor e o impacto dela na vida da família é que se estabeleceu nos EUA, primeiramente, o mês de outubro como o da conscientização da perda gestacional e neonatal. Atribui-se ao dia 15 deste mês, como o dia internacional da conscientização da perda gestacional ou do recém-nascido e propõe que todos os pais e familiares acendam velas em uma enorme corrente de luz em homenagem aos bebês que partiram e seguem sendo amados formando a ‘Wave of Light’, onda de luz.
Realmente é preciso luz sobre este assunto tão negado, evitado e as vezes escondido, que causa dor e solidão quando não pode expressar a sua força de emoção. É preciso conscientizar para valorizar e dar espaço para vivenciar este luto, invisível aos olhos de muitos, respeitando suas características e potencial transformador.
Quando os pais se preparam para receber um filho e o perdem ainda que seja como afeto, como feto ou logo depois de nascido, perde-se junto um formato de família que até então foi sonhado e amado. Interrompe-se um fluxo de amor e energia. A dor torna-se inevitável assim como a necessidade de um espaço para expressa-la com palavras, choro, lamento pelo tempo necessário e que diz respeito a história e singularidade de cada mulher e homem.
Uma das perguntas recorrentes que a mãe que perde seu filho, ainda no início da gravidez, antes mesmo de saber o sexo ou de escolher um nome, faz é: sou mãe ou não? A falta do contato com a criança supõe a sensação de ter sido somente uma ideia, ainda que se saiba que o filho existiu, pela emoção sentida ou transformação no corpo. Desconsiderada pelo senso comum a dor desta perda é muitas vezes minimizada e confrontada com a informação de que “estava só iniciou, nem dá para considerar”. Foi o início de uma transformação para o resto da sua história. Não existe ex mãe, seja ela de filho em formação ou gerado.

As perdas neonatais envolvem mais exposição, mais preparos e expectativas. Pensa-se no nome, faz-se o enxoval, prepara-se a casa e a família – quando os braços vazios indicam que algo não deu certo. O coração reclama, o corpo reclama e mente reclama. Perguntas buscam respostas. Respostas nem sempre convencem, conformam ou confortam. É preciso transformar o vazio, reposicionar o amor e amar o irremediavelmente perdido, função que requer força e coragem.
O processo de luto dos pais pelos seus filhos são certamente os mais delicados pois invertem a ordem da vida. Transformam o que era para ser futuro em passado. Transforma famílias em casais, irmãos em filhos únicos ou confundem a ordem de quem veio quando. Encontrar um espaço adequado para conversar sobre este assunto sem censura ou inibição faz parte do processo de ressignificação da emoção que não pode ser deixada de lado ou esquecida.
Ressignificar é dar um novo sentido. Um novo sentido para um sentimento que não cessa. As palavras gastam a dor e transforma vazios em possibilidades, saudade em presença sensível e memória em amor contínuo.
O Cora, núcleo de estudos sobre o Luto do CEFI, investe na sensível formação de seus profissionais, para que sejam capazes de acolher com intervenções e escuta atenta a dor de quem perde um filho. E deseja nesta onda luz dizer - conte conosco nesta caminhada de aprendizagem e trocas no trabalho com o luto.

Fontes:
https://perdaseluto.com/2017/08/15/perda-gestacional-um-luto-nao-reconhecido-uma-dor-invisivel/
https://www.medicosdeportugal.pt/info/utentes/gravidez/aborto-espontaneo-gravidez-interrompida/
Maternidade interrompida: o drama da perda gestacional / Maria Manuela Pontes (org). São Paulo: Ágora, 2009.
https://www.facebook.com/ong.amadahelena/

Autora: Ana Maria Dall'Agnese - psicóloga